Do Sertão
ao Asfalto:
a história do forró
e sua chegada ao Rio
Como um ritmo nascido nas festas populares do interior nordestino atravessou o país, chegou à cidade maravilhosa nas malas dos migrantes e se tornou uma das cenas de dança mais vivas do Brasil.
O que é forró — e o que não é
Pergunte a dez pessoas o que é forró. Você vai receber respostas bem diferentes. Baião, xote, xaxado, eletrônico, universitário, pé de serra, roots — o nome carrega músicas, gerações e disputas dentro de si. Antes de falar do Rio, vale entender de onde veio tudo isso.
A palavra forró, segundo a Enciclopédia da Música Brasileira (1998) e o historiador Luís da Câmara Cascudo, deriva do africano forrobodó — farra, arrasta-pé, confusão. Não era nome de ritmo. Era nome de festa. Com o tempo, a festa emprestou o nome à música que a animava.
O que hoje chamamos de forró pé de serra tem raízes nos bailes populares do sertão pernambucano do século XIX. É um universo que reúne ao menos três gêneros distintos: o baião, o xote e o xaxado. Cada um com origem e temperamento próprios.
Baião, xote e xaxado — três raízes, um tronco
O baião veio do lundu africano e das danças indígenas, tocado por violeiros e bandas do interior. O xote chegou da Europa — uma adaptação da polca, mais lenta, mais agarrada. O xaxado teria nascido no Cangaço: como não havia mulheres nos bandos, a dança era masculina, em linha, sem par — um sapateado ritmado com rifles em punho.
Os três têm em comum a base que define o forró tradicional: sanfona, zabumba e triângulo. Três instrumentos simples que juntos formam uma das sonoridades mais reconhecíveis da música popular brasileira.
"O forró possui um grande poder cultural e histórico e tem a cara do Brasil — nas músicas é possível contar a história do povo brasileiro."
Portal Sesc RJ — Forró: Do Nordeste para o Mundo (2020)Luiz Gonzaga e os que abriram o caminho
O forró era festa de interior. Ficou assim até que um pernambucano nascido em Exu — a mais de 600 km do Recife — chegou ao Rio e mudou o que era possível imaginar sobre esse ritmo.
Luiz Gonzaga do Nascimento chegou à capital federal ainda jovem para tentar a vida como músico. Na Rádio Nacional, ao lado do compositor Humberto Teixeira, criou o formato que definiria o forró como gênero moderno. Em 1947, os dois assinaram Asa Branca — que se tornaria o hino nordestino mais cantado do país. Mas Gonzaga não era só compositor. Era um artista de palco: adotou as vestes de vaqueiro, o chapéu de couro, transformou a identidade sertaneja em personagem e levou o forró por todo o Brasil.
Ao redor de Gonzaga, uma geração de artistas igualmente fundamentais:
Fontes: Portal Sesc RJ, Adelmario Coelho, Fórum Forró de Raiz RJ, Enciclopédia da Música Brasileira (1998)
O forró que chegou ao Rio nas malas
O forró não viajou sozinho. Ele veio com as pessoas.
A partir dos anos 1940 e 1950, e com mais força entre os anos 1960 e 1980, uma onda de migrantes nordestinos se deslocou para o sudeste em busca de trabalho. O Rio foi o segundo estado que mais recebeu esse fluxo. E com os migrantes vieram as festas, a comida, as músicas — e o forró.
Segundo o Portal O Prelo (IOERJ), data-se de 1970 o início do Forró Forrado, um dos primeiros espaços de difusão do ritmo na cidade. Em dois salões no Catete que se misturavam às obras do metrô, Adélio Silva trabalhou com nomes como Zé Gonzaga e a própria Marinês para difundir o ritmo numa cidade que, naquele momento, olhava para o forró com certo preconceito.
A virada veio quando as gravadoras perceberam o potencial. Artistas como Fagner, Chico Buarque e Tom Jobim passaram a frequentar as casas de forró cariocas — e a presença desses nomes legitimou o gênero perante uma elite cultural que até então o ignorava.
"O Rio de Janeiro, berço do samba, em seu espírito cosmopolita e versátil, admitiu e se encantou desde a chegada do forró na década de 1940 — com a dança, a alegria do gênero, a música e com o jeito original dos mestres nordestinos que adotaram a cidade como segunda pátria."
Fórum Forró de Raiz RJDo estilo Itaúnas ao roots — como o Rio se tornou palco de uma dança que veio do Espírito Santo
O forró roots não nasceu no Rio de Janeiro. Antes de chegar à cidade e ganhar aqui uma das cenas mais vibrantes do país, ele percorreu um caminho que começa numa vila litorânea do Espírito Santo — e que só ganha nome próprio décadas depois.
Itaúnas, distrito de Conceição da Barra, no norte capixaba, é hoje conhecida como a capital do forró no sul do Brasil. Segundo pesquisa publicada na Revista InCantare (UNESPAR), foi ali que nasceu "um estilo de dança a partir do pé de serra, conhecido como forró roots ou forró de Itaúnas, a partir da forma única de dançar dos nativos da região". O Festival Nacional de Forró de Itaúnas — o Fenfit — existe desde 2001, mas o movimento pé de serra no local vem desde os anos 1980.
Em 2001, surge o Rootstock — festival criado por Ivan Dias, do Forró do Vinil, com acervo de forró desde os anos 1940. Inspirado no espírito do Woodstock, o festival propõe ouvir forró 24 horas no meio do mato, com DJs fazendo o que um professor de roots chamou de "arqueologia forrozeira". É ali que o movimento consolida sua identidade musical. A dança, porém, só passa a ser chamada de "roots" por volta de 2015 e 2017 — antes disso, chamava-se simplesmente "estilo Itaúnas".
O roots como dança tem influências que vão além do forró. Conforme descrevem praticantes e pesquisadores do movimento, o samba de gafieira e o tango foram centrais na formação do "corpo roots" — aquele abraço fechado, as sacadas de pernas, a caminhada no tempo. A casa de forró Remelexo, em Pinheiros, São Paulo, com professores como Evandro Paz, China e Buiu, foi outro polo formador que alimentou o estilo com elementos da dança de salão. O roots se consolida, portanto, como um estilo genuinamente sudestino — construído a muitas mãos, em vários estados, a partir de uma base que vem do Nordeste.
Yse Góes e a chegada do roots ao Rio
O Rio de Janeiro entra nessa história de forma decisiva em 2013. Foi nesse ano que Yse Góes — nascida em Florianópolis, iniciada no forró roots em 2010 — se mudou para a cidade e passou a ensinar regularmente. Yse se tornou uma das principais referências técnicas do estilo no país, com tournées pela Europa e aulas em festivais internacionais. Sua chegada ao Rio deu ao estilo roots uma escola, um método e uma visibilidade que a cidade ainda não tinha para esse formato de dança.
Com a pandemia, Yse deixou o Rio e foi morar em Espinho, Portugal — onde segue ensinando e levando o forró roots para a Europa. Mas o que ela plantou no Rio ficou. A cena que existe hoje na cidade — com bailes, academias e professores formados nesse universo — tem nessa trajetória uma parte importante de sua origem.
O forró universitário, por sua vez, tem raízes diferentes: surgiu entre universitários de São Paulo e na região de Itaúnas nos anos 2000, com influência das danças de salão e da lambada. É mais técnico, com giros elaborados e floreios. Roots e universitário são parentes, mas não são a mesma dança — têm corpos diferentes, abraços diferentes, intenções diferentes.
Onde o forró vive hoje no Rio
O Rio mantém uma das cenas de forró mais ativas do país. Para acompanhar a agenda semanal completa, o perfil @forronorio no Instagram — com mais de 73 mil seguidores — é a principal referência dos forrozeiros cariocas. Abaixo, os espaços fixos que estruturam essa cena.
Fontes: Visit Rio (2026), @forronorio (Instagram), Sympla, Diário do Rio, Forró de Copacabana (2025), Fórum Forró de Raiz RJ
Patrimônio — e o que isso muda
Em 2021, as matrizes tradicionais do forró foram reconhecidas como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo Iphan. O processo começou dez anos antes, quando a Associação Cultural do Balaio do Nordeste, da Paraíba, registrou o pedido com apoio de 423 forrozeiros de todo o país.
O Dia Nacional do Forró é comemorado em 13 de dezembro — aniversário de Luiz Gonzaga — desde 2005.
Esse reconhecimento não é apenas simbólico. Ele afirma que o forró não é entretenimento passageiro: é expressão cultural com história, com memória, com gente que o carrega no corpo. É por isso que aprender forró no Rio hoje é, em alguma medida, participar de algo muito maior do que qualquer aula ou giro ensinado em sala.
O forró chegou ao Rio na mala de quem veio sem nada, discriminado por quem não entendia sua linguagem. Hoje ocupa salões, academias, feiras, bares e ruas — e reúne toda semana pessoas que nunca pisaram no Nordeste mas encontraram nessa dança uma forma de se conectar com algo real.
Esse é o forró que o Bailado Carioca ensina. Com os pés no sertão e o abraço no Rio.
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Fontes e referências
- Enciclopédia da Música Brasileira. Art Editora, 1998
- CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. 1975
- Portal Sesc RJ. Forró: Do Nordeste para o Mundo. 2020. sescrio.org.br
- Fórum Forró de Raiz RJ. Mapeamento do Forró no Rio de Janeiro. forumforroderaizrj.com
- Portal O Prelo / IOERJ. Um Nordeste Carioca. 2021. oprelo.ioerj.com.br
- Neoenergia. Forró é Patrimônio Cultural do Brasil. neoenergia.com
- Visit Rio. Onde tem forró no Rio de Janeiro. 2026. visitrio.com.br
- Blog Lucis. Reflexões sobre o forró no Rio de Janeiro. 2024. blog.lucis.dev
- Adelmario Coelho. História do Trio Nordestino. adelmariocoelho.com.br
- Forró de Copacabana. Onde dançar forró no Rio. 2025. forrodecopacabana.com.br
- FREITAS, V. et al. História e perspectiva do forró no norte do Espírito Santo. Revista InCantare, UNESPAR. periodicos.unespar.edu.br
- GONÇALVES, Nando (entrevista). Roots: Um Movimento de Resgate Cultural. Forró Felicidade, 2023. forrofelicidade.com.br
- Yse Góes. Biografia e trajetória. ysegoes.com.br
- Assembleia Legislativa do Espírito Santo. Forró no Espírito Santo é alvo de pesquisa do Iphan. 2019. al.es.gov.br